sábado, 4 de junho de 2016

NASCE O FESTIVAL DE SURFE DE UBATUBA...............



Paulo Jolly Issa, nascido em 1949 e seu irmão Ricardo foram dos pioneiros do surf paulista. Começaram surfando com uma prancha de madeirite, no ano de 1966 em São Vicente. Um dos primeiros a desbravar as praias de Ubatuba, acabou estabelecendo um padrão nacional para a organização de campeonatos de surf. Pesquisou regras, foi juiz, fundou a ASU (Associação de Surf de Ubatuba) e atingiu a presidência da Abrasp em 1988. Um “professor” em termos de fazer um evento de surf acontecer como um relógio suíço. Como trabalho principal dirigia a fábrica de pranchas Squalo, trabalhando com diversos shapers. A fábrica orbitava ao redor deste universo, Paulo chegou a investir capital da Squalo para manter a ASU operando.




Vamos deixar ele contar o início dessa história: “Os anos 50, 60 e 70... Foi uma época em que o surf estava em ebulição. Fatos novos aconteciam a todo o instante. Novos picos, evolução das pranchas, surfwear, campeonatos maiores...”
Paulo Issa continua, “Em 1970 foi realizado um primeiro campeonato em Ubatuba, quem organizou foi um pessoal da Boate Da Pesada, frequentada pelos surfistas de noite na praia do centro. O primeiro evento teve vinte e poucos participantes, só o pessoal que surfava em Ubatuba. Surfamos no Baguary da praia Grande e os juízes sentavam em cadeiras de alumínio. Eu acabei ficando em primeiro, com meu irmão Ricardo Issa em segundo, na final ainda estavam Renato e o Fabinho Madueño. O Bruzzy era o mascote da turma com 13 anos.
RICARDO ISSA ITAMAMBUCA. 
FOTO: KLAUS MITTELDORF

Para o segundo campeonato, em 1971 eu e meu primo fizemos umas cartolinas, escrevemos à mão: ‘Campeonato de Surf – Ubatuba...’ e fomos de Fusca, saímos às 6 da manhã para o Guarujá, afixamos no centrinho, na sorveteria, não falamos com ninguém e fomos embora para Ubatuba. Eu lembro que um dia antes do campeonato, janeiro de 1971, estávamos treinando ali na praia Grande e de repente vimos uma caravana, com diversos carros com pranchas na capota. A turma veio!!! Uma galera de uns quinze em três a quatro carros. Veio Égas, Roberto Teixeira... O Thyola foi um dos juízes. Égas Muniz Atanázio era o favorito, mas quem acabou ganhando foi o Zé Maria Whitaker. O Égas tinha um surf australiano, ele estava com uma São Conrado biquilha, de rabeta larga e fazia manobras que ninguém conseguia igualar.
ÉGAS, INDISCUTIVELMENTE O MAIS TALENTOSO SURFISTA DO GUARUJÁ NO INÍCIO DOS ANOS 70.
FOTO ARQUIVO PESSOAL PARDAL (GUARUJÁ DAS ANTIGAS)

No final de 71 criei a ASU (Associação de Surf de Ubatuba), já pensando no campeonato de 1972. Para este já fizemos cartazes com silk. Pegamos o carro e fizemos a mesma coisa, mas em três finais de semana diferentes, para Santos, depois o Rio e também Guarujá. Consegui inserir chamadas na Rádio Mundial do Rio. Veio bastante gente. O segundo campeonato foi em barracas, mas para este terceiro evento já consegui um palanque com a Prefeitura de Ubatuba. Fizemos duas fases e as ondas ficaram muito pequenas, lembro que subi em cima do palanque e falei: o campeonato está adiado para julho.”
Naquele janeiro de 1972 Paulo Issa não teve outra opção. Vou deixar aqui um relato particular de minha experiência. Também vi aqueles cartazes na sorveteria do centrinho do Guarujá. E ouvi meus amigos, que haviam participado do campeonato de 1971, apenas com surfistas de Ubatuba e do Guarujá, falarem muito bem do astral da competição. Em 1972 eu sabia que o evento seria nacional e teríamos a oportunidade de ver os cariocas surfando. Eu tinha 15 anos, surfava há três anos e numa manhã de janeiro parti com meu pai e meu irmão. Do Guarujá fomos até Bertioga atravessamos a balsa e seguimos por 100 quilômetros de terra e areia, até a Cidade de São Sebastião. Nesse trecho a Rio-Santos era uma estrada de terra, a serra de Maresias enlameada era um “Deus nos Acuda”. Nos trechos iniciais das praias maiores – Bertioga, São Lourenço, Itaguaré, Guaratuba e Boraçéia o carro descia para a areia e disparávamos por aquelas praias amplas e desertas. O problema ali eram os diversos riachos que desciam até o mar, às vezes cavavam degraus perpendiculares à praia e o carro saltava se atingisse um desses em alta velocidade. O problema maior era na maré cheia, muitos carros foram engolidos nesse percurso. Ao chegar nos morros que separavam as praias tínhamos de voltar para a estrada de terra subindo naqueles “areiões” fofos, que também eram outra armadilha convidando para uma atolada. Fazia parte da aventura. O pior foi quando no início da tarde enfrentamos uma chuva de verão daquelas. O trecho final, de Maresias até São Sebastião, quase todo em serrinhas de sobe e desce, foi realizado a 20 por hora, com derrapagens controladas. Sorte que meu pai era um bom piloto. Mais um festival, um verdadeiro campeonato, de curvas de Caraguá até Ubatuba, agora no asfalto, quando o carro apontou na praia Grande já era noite. Sete, quase oito horas depois que saímos do Guarujá, vimos o palanque, algumas barracas, mas fomos procurar um hotel no centro.
O PALANQUE NA PRAIA GRANDE DE UBATUBA, I972.
FOTO ARQUIVO PESSOAL PAULO ISSA.
REPRODUÇÃO DO LIVRO DE ALEX GUTENBERG, 
PUBLICADO PELA EDITORA AZUL.

Na manhã seguinte o 3º CAMPEONATO DE SURF – UBATUBA 72, o primeiro “Festival Nacional” começou em ondas bem formadas de meio metrinho no canto esquerdo da praia Grande. O surfista que mais me chamou a atenção por sua apresentação foi Rico de Souza, com estilo ágil, buscando aproveitar todas as seções da onda, fazendo hang fives “strech”, com cinco dedos no bico de sua pranchinha. Daniel Friedmann, Carlos Mudinho e outros que eu nem sabia quem eram, me impressionaram. Meu ambiente de surf era o da praia de Pitangueiras no Guarujá. Lá havia grandes surfistas como Roberto Teixeira, Égas, Zé Roberto Rangel... Mas o nível dos surfistas cariocas era muito superior. Passei uma bateria e perdi na segunda fase. O campeonato foi paralisado por falta de ondas. Um amigo do Guarujá me convidou para ir conhecer uma praia secreta. Paulão (Paulo Kristian Orberg) tinha uma VW Variant e partimos para Itamambuca, por uma estrada sinuosa, com pontes de madeira e muita mata. Quase uma hora depois chegamos na desembocadura de um rio e... Incrível!!! Ondas de um metro e meio abriam lisas e perfeitas. A praia Grande estava praticamente flat. Só nós dois na água, por mais de uma hora, apenas uma mutuca apareceu no outside nos perseguindo. O jeito foi driblá-la com uma série de cutbacks.
Esse pico secreto não seria guardado à sete chaves por muito tempo. Não fui para o Festival de Ubatuba em 1973, mas no evento de 74, quando voltei, ele foi todo disputado lá, em altas ondas. Lembro de uma cena que ficou gravada em minha cabeça. Nas seções de free surf antes do campeonato, um surfista do Rio de Janeiro pegou um tubo alucinante, na minha cara, em uma direita na boca do rio. Fui perguntar quem era: Marcos Berenguer. Ele acabou vencendo aquele campeonato de 1974.
MARCOS BERENGUER NO CANTO DE ITAMAMBUCA.
FOTO BRASIL SURF

OS PRIMEIROS NACIONAIS DE UBATUBA
Em julho de 1972, quando a turma voltou a Ubatuba, em pleno inverno, a fama do campeonato estava angariada, além dos surfistas que estiveram lá em janeiro, apareceram muitos mais, até de outros estados. Paulo Issa: “Começamos da estaca zero, vieram muito mais surfistas. O Rico venceu, o surf dele era muito evolutivo, andava com uma velocidade incrível, usava muito a parte da frente da prancha. Nestes primeiros eventos julgávamos em cadeirões e a preocupação maior era ir atrás das melhores ondas. A final de 1975 foi transferida para a praia Vermelha do Norte.”
O campeonato de 1973 teve suas eliminatórias na praia Grande e as finais foram realizadas em Itamambuca. Já naqueles primeiros eventos, além do apoio da prefeitura da cidade, Paulo isso conseguiu alguns apoiadores:
PATROCÍNIOS
73 Varig - Rico ganhou uma passagem para o Peru (depois ele estendeu para a Califórnia)
75 Gledson – material, cartazes, troféus, faixas, camisetas

RESULTADOS
Festival Brasileiro de Surf de Ubatuba (SP)

1972 Rico de Souza (RJ)
2º Marcos Berenguer (RJ)
3º Daniel Friedmann (RJ)
4º Betão Marques (RJ)
5º Ricardo Bocão (RJ)

ÚNICA FOTO DO PÓDIO ENCONTRADA DO PRIMEIRO FESTIVAL DE UBATUBA EM 1972.
BETÃO (4), BERENGUER (2) RICO (1) DANIEL (3) BOCÃO (5). AUTOR DESCONHECIDO?
PAULO ISSA ENTREGANDO AS PREMIAÇÕES

1973 Rico de Souza (RJ)
2º Rossini Maraca (RJ)


1974 Marcos Berenguer (RJ)
2º Daniel Friedmann (RJ)

DANIEL FRIEDMANN, ITAMAMBUCA. FOTO KLAUS MITTELDORF

1975 Otávio Pacheco (RJ)
2º Carlos Mudinho (RJ)
3º Lary Ipanema (RJ)
4º Juan Alberto (RJ)
5º Cisco Araña (SP)
6º Décio Dias (SP)
O FOTÓGRAFO BRUNO ALVES ORGANIZOU UM BELO BLOG COM O ACERVO DE 
IMAGENS INCRÍVEL. PROCUREM O BAÚ DE KLAUS MITTELDORF NOS ANOS 70

O campeonato de Ubatuba não ocorreu nos anos de 1976 e 1977, voltando em 1978 com o bicampeonato de Otávio Pacheco. A lacuna não foi tão sentida porque já em 1975 nascia o Festival de Saquarema, que teria seus anos áureos justamente neste período.

FOTOS DE NILTON BARBOSA NA BRASIL SURF, 
1978 COM OTÁVIO PACHECO ACIMA,
 MAIS WADY, CISCO, CACAU e PAULO PROENÇA


FONTE......................BLOG DO DRAGÃO DO SURFE

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