segunda-feira, 13 de junho de 2016

A Volta por Cima de uma Campeã




Essa matéria foi publicada na edição impressa da Revista Ubatuba Sim! lançada em 14/01/2016.
Texto: João Pedro Néia
Suelen Naraisa, bicampeã brasileira de surfe, cresceu cercada de areia e mar. Nas ondas de Itamambuca, onde a avó possui um quiosque há décadas, deu os primeiros passos rumo ao esporte que se tornaria sua atividade profissional e sua grande paixão. Esporte ao qual se dedica desde os 8 anos de idade, com um breve intervalo de para superar um drama pessoal: um câncer agressivo no rim, quando era ainda uma garotinha de 10. A doença só viria a dar trégua aos 13.



Hoje, aos 31, Suelen esbanja saúde e uma carreira recheada de conquistas e momentos marcantes, como os dois títulos nacionais e os 14 países em que já surfou, competindo em alto nível contra as grandes surfistas de sua geração.
Tudo começou graças ao irmão mais velho, Wellintgon Carane, também surfista e o responsável por apresentar Suelen aos encantos do surfe.
A menina demonstrou de cara que o talento para o esporte corre no sangue da família. Além de Wellington, Suelen também é irmã de Wiggolly Dantas, surfista ubatubense que disputa o WSL (World Surf League, a elite do surfe mundial), e de Wesley Dantas, garoto de 13 anos que tem se destacado em etapas do circuito mundial na categoria amador, com um futuro brilhante pela frente.
Foto: Lakini
Foto: Lakini
No começo dos anos 90, o surfe começava a se tornar algo sério na vida de Suelen. Aos 8 anos, competia nas etapas locais e, apesar da pouca idade, já dava indícios de que não era apenas mais uma no meio de uma multidão de aspirantes a surfistas. Mas o sonho foi interrompido pelo destino. Após um período sentindo dores intensas na parte inferior das costas, e das inúmeras idas e vindas a clínicas e a médicos na tentativa de descobrir a causa das dores, Suelen foi diagnosticada com câncer no rim. Mais precisamente um tumor de Wilms, tumor renal maligno que acomete principalmente crianças entre 2 e 4 anos de idade. Nada comum para uma criança de 8. Para piorar, a doença foi descoberta em um estágio avançado, já tomando partes do fígado, baço e dos pulmões, além do rim.
Foram três anos de internações, sendo um ano inteiro dentro do hospital, com contato reduzido com a família, isolada num quarto especial para evitar contaminações.
“Foi um momento muito difícil, dolorido pra família toda, cheguei a fazer operação e retirei o rim esquerdo”, relembra a campeã, que passou por sete médicos antes de descobrir a doença. Suelen guarda detalhes dessa época.
“Eu lembro desde o primeiro dia até o último. Em Ubatuba, fiz um ultrassom e na hora o médico pediu pra eu sair da sala. Eu não entendi, era muito nova, e aí ele contou pra minha mãe”, diz Suelen.
A procura por tratamento começou no mesmo dia. Foram parar em Taubaté, onde Suelen ficou 14 dias sem contato com ninguém além de médicos e enfermeiros. Mas o local carecia de oncologista pediatra e não oferecia o tratamento adequado. A família conseguiu transferência para o A. C. Camargo, o hospital do câncer, em São Paulo. Mas a essa altura, Suelen já estava muito magra e debilitada, sentia muitas dores e quase não conseguia comer. Desacreditados, os médicos liberaram a visita da família. “Eles liberaram porque eu ia ser transferida pra São Paulo e ninguém tinha certeza do que poderia acontecer”. Para a família, foi um choque ver a menina 14 dias depois, com dificuldades para andar, muito magra e o aspecto abatido.
Apesar dos riscos, a remoção para a capital “era o caminho a ser seguido”, como diz Suelen. E representou um novo ânimo para todos. No hospital, que é referência no tratamento ao câncer, a família tomou conhecimento da gravidade do problema. Foi quando entrou em cena uma personagem fundamental na história.
“Tem uma doutora que eu falo que foi um anjo que Deus colocou na minha vida, que é a doutora Beatriz”, diz Suelen. “Ela foi quem sentou comigo. Eu não sabia a gravidade, mas sabia que não era nada bom, pelas dores, e ela falou que a situação era difícil. Foi sincera comigo e era o que eu precisava. Ela disse que seria difícil, mas que ela venceria e que eu teria que lutar junto com ela. Então eu resolvi lutar”, conta a campeã.
Suelen lutou ao lado da família. Principalmente da mãe. “Foi a pessoa que me acompanhou esse tempo todo”, diz.
Volta por cima
Suelen derrotou o câncer e, aos 13 anos, era hora de recuperar o tempo perdido e fazer aquilo que mais amava: surfar. Fotos antigas mostram Suelen competindo de touca, devido à queda de cabelo causada pela quimioterapia.
Como em um roteiro de cinema, após a tormenta a jovem surfista foi recompensada pelo destino e as coisas começaram a dar certo. Suelen despontou como um dos grandes nomes do Estado na categoria amador. No primeiro ano, conquistou um quinto lugar, mesmo sem disputar todas as etapas. No ano seguinte, ganhou sua primeira etapa, em Maresias (São Sebastião), e ficou bem perto da disputa pelo título paulista. O resultado rendeu o primeiro patrocínio da vida de Suelen, então com 13 anos.
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
Com o tempo, ainda entre os amadores, Suelen faturou duas vezes o título paulista e passou a “correr” (gíria do surf que significa competir) o circuito nacional, até que surgiu o convite para a disputa do circuito brasileiro profissional, em 2001. Os resultados no primeiro ano como profissional valeram o índice para o ano seguinte.
No meio das profissionais, Suelen continuou se destacando e entrou firme, ano após ano, na briga pelo título nacional. A glória veio em 2009, na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
“Foi algo sacrificado. Sempre batendo na trave, perdendo título nas últimas etapas, cheguei a acreditar que isso não aconteceria. Mas tiveram pessoas que trabalhavam comigo que sempre me apoiaram, minha família, marido, amigos, meu técnico”, diz Suelen. “Foi um momento de muita tensão, de saber se tinha conseguido a nota ou não. Aí quando aconteceu, veio o sentimento de satisfação, de leveza, né? Foi maravilhoso”, relembra.
Suelen voltou a conquistar o título brasileiro em 2010, em etapa na praia de Joaquina, em Florianópolis.
Além das conquistas, Suelen teve a oportunidade de surfar em 14 países, nas praias mais badaladas do mundo, como Havaí (7 vezes), Austrália (3 vezes), Indonésia (2 vezes) e Ilhas Maldivas.
Suelen está sem patrocínio há dois anos, período em que se distanciou do topo e não teve como disputar todas as etapas do circuito mundial. Patrocinada pelo irmão, Wiggolly, a surfista passou por México e El Salvador em 2015, pelo torneio qualificatório (espécie de segunda divisão do circuito feminino), mas não obteve os resultados que gostaria. A falta de um circuito brasileiro feminino consolidado também dificulta a busca por reconhecimento e apoio, além de desanimar os novos talentos.
Mas a dedicação e a preparação continuam. “Eu continuo treinando a parte física na academia, e continuo tendo que fazer as minhas pranchas. Tenho algumas pessoas que estão sempre me olhando e falando ‘olha, vamos melhorar nisso’. Mas hoje eu não conto com uma equipe me acompanhando diariamente como era na época que tinha o circuito brasileiro. Mas o trabalho continua sendo feito”, explica Suelen, que é formada em Educação Física. A formação acadêmica e a vivência no esporte abriram novas possibilidades para a campeã, que dá aulas particulares de surfe em Itamambuca e, desde novembro do ano passado, tem realizado clínicas de surfe e atividades físicas com mulheres de várias cidades do Brasil, em parceria com a empresa carioca HardCore Sports, especializada em turismo de aventura.
O projeto, chamado “Soul Delas”, funciona como um evento que mistura esporte e bem estar, com estrutura de alimentação e pousada, em que são vendidos pacotes fechados para as alunas interessadas em aprender com Suelen.
“Eu tenho direcionado também para outros caminhos. Tenho uma escola de surf e hoje em dia eu trabalho com isso. Eu dou aula de surfe na Itamambuca e iniciei um projeto de clínicas de surfe com mulheres. É um projeto bem bacana, de passar o que eu aprendi com o surfe para outras pessoas”, diz.
A gestão da carreira acontece em um momento de definição. O caminho para voltar às competições e ao topo do ranking se torna cada vez mais árduo sem patrocínio, tarefa ainda mais difícil se tratando de um esporte que celebra o bom momento entre os homens, mas que vem negligenciando as atletas femininas dia após dia. Nada que apague as lembranças de uma época de glórias, em que Suelen encheu Ubatuba de orgulho. Lembranças que irão permanecer para sempre. Assim como a certeza que Suelen carrega de que a melhor sensação do mundo é a de estar em cima de uma prancha.
fonte.............

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